Reportagem publicada no Jornal O Globo 28/08/99

Da Curiosidade à Dependência

 Analice Gigliotti

 

Até os anos 60, fumar era o máximo. Coisa de mulher chique e homem bonitão. Rita Hayworth, Humphrey Bogart e James Dean eram alguns dos estandartes desta imagem. Já na década de 70, este glamour foi se perdendo graças às evidências crescentes dos incontáveis malefícios do fumo, e os fumantes foram começando a se perceber viciados, tão grande era a dificuldade de deixarem aquilo que eles sabiam lhes  fazer tão mal.

        Também nos anos idos, além do glamour e da mídia que seduzia os ingênuos, fumava-se quando sofria-se. Mas até este quadro foi se modificando e os fumantes passaram a sofrer porque fumavam. A partir daí, foram procurando os mais diversos tipos de auxílio: espiritismo, simpatia, todos os tipos de magia. “É só colocar um cigarro apagado dentro d’água durante a noite e tomar um gole dessa água no dia seguinte que você não fuma nunca mais!” , diziam ( e ainda dizem) alguns.

        Mas com todos os esforços, e mesmo com o desejo verdadeiro de deixar de fumar, poucos conseguiam (até hoje, a despeito de 80 % dos tabagistas desejarem abandonar o cigarro, apenas 5 % conseguem sozinhos). E por que as pessoas se sentem tão profundamente (e às vezes mortalmente) vinculadas a um mero tubo de papel incandescente?

As explicações são inúmeras. Os primeiros tragos da carreira do fumante são obviamente, em busca de prazer ou aprovação social. Mas, à medida que os tragos se seguem, o cigarro vai tomando um novo significado: já não se pode mais saborear um vinho sem que o cigarro acompanhe; já não se pode falar ao telefone, degustar uma refeição tomar um mero cafezinho, sem ele ao lado. Ao cabo de alguns anos, a crença é de que não se pode mais viver sem cigarro. Esquece-se de que o mais provável é que se morra por causa dele.

Há também  aqueles que escondem no cigarro suas emoções. Usam-no para aliviar o estresse e a raiva ou para preencher os vazios internos. Mas também podem usá-lo para ampliar os momentos de alegria. Há os que o  utilizam como maquiagem, adereço, algo que facilite as interações sociais. E aí já não sabem mais de  quem são as conquistas neste território: de si próprias ou do tabaco. Tudo isto pode parecer absurdo ou até mesmo ridículo, mas um fumante facilmente se reconhecerá no quadro que estamos pintando.

O que encontramos com freqüência, entretanto, é o indivíduo que inicialmente fumava por prazer, mas aos poucos foi percebendo que, se passasse algumas horas sem fumar, sentia-se desconfortável: ansioso, irritado, deprimido, sonolento... E então passou a fumar com regularidade, para manter a concentraÇão de nicotina, evitando a síndrome de abstinência. Este é o dependente físico da nicotina a droga que vicia no cigarro.

Neste momento, um leitor fumante pode estar afirmando: “Mas eu só fumo porque gosto!” Este é outro fator comum a todas as drogas, além da síndrome de abstinência : a capacidade de gerar prazer e de, com isto, reforçar a procurar de mais droga. A sociedade ocidental contemporânea reforça a procura deste tipo de prazer imediato em detrimento de outros prazeres mais saudáveis, tais como fazer esportes ou outras atividades de lazer.

E como se livrar disto? Graças a Deus (e as cientistas), esta tarefa está menos árdua. Desde que se comprovou que a nicotina era uma droga, os tabagistas puderam  trocar as “curas mágicas” por técnicas baseadas no tratamento de dependentes químicos, que se comprovaram eficazes. Estas técnicas tÊm como objetivo “desfazer” as correntes que foram pouco a pouco construídas no correr da vida do fumante.

Pela terapia cognitivo-comportamental, o tabagista passa a aprender  comportamentos substitutos ao ato de fumar  para conseguir dissolver seus vínculos psicológicos. Aprende exercícios de relaxamento para  lidar com estresse, o que fazer após as refeições ao invés de fumar e como lidar com o “vazio” que a falta do cigarro deixa.

Já as terapias de reposição de nicotina têm como fundamento lógico para seu uso o alívio dos sintomas de abstinência ( a irritabilidade e a ansiedade provocadas pela queda dos níveis de nicotina). Estas são as medicações de  primeira escolha para parar de fumar. Como exemplos, temos os chicletes e os adesivos de nicotina.

Desta forma, ao mesmo tempo em que usa a medicação, o fumante livra-se das outras 4.719 substâncias químicas existentes  no cigarro e começa a se adaptar à vida sem ele. Antidepressivos como bupropiona e nortriptilina também se mostraram   eficientes no abandono do tabagismo, diminuindo os sintomas da abstinência ou a sensação de prazer ao fumar. E estas medicações funcionam independentemente de o paciente ter depressão. Cada um desses tratamentos dobra as chances de deixar de fumar. A associação da terapia comportamental a qualquer um dos tratamentos farmacológicos amplia essas taxas de abstinência.

                                   

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