Reportagem publicada no Jornal Folha de São Paulo 14/11/1999
Distúrbio emocional eleva vício da nicotina
Andréa Perdigão Gayoto
Distúrbios psicológicos, principalmente a depressão, são um obstáculo para quem pretende parar de fumar. A nicotina pode estar sendo usada como remédio para esses problemas emocionais.Segundo dados apresentados no 3º Simpósio Internacional sobre Tratamento do Tabagismo, 30% das pessoas que pararam de fumar e tiveram recaída têm quadro de depressão que não se manifestava por causa da nicotina.Com base nessas pesquisas, médicos estão usando antidepressivos para combater a dependência do cigarro. Um desses remédios acabou de chegar ao Brasil no mês passado (leia texto abaixo)."A nicotina é uma droga poderosa, pois atua no cérebro regulando o grau de ansiedade, aumentando a concentração e a memória. Se um fumante recebe uma má notícia, logo quer fumar", diz Jaqueline Scholz Issa, cardiologista do Incor.Alguns fumantes usam o cigarro para conseguir mudanças no estado intelectual e emocional. O auxílio encontrado, porém, acaba escondendo dificuldades psíquicas e alimentando o vício.Segundo Analice Gigliotti, psiquiatra-chefe do setor de dependência de nicotina da Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, os fumantes dependentes de outras drogas e com carência afetiva ou comportamental encontram mais dificuldade de deixar o vício. "Eles tentam parar, mas têm recaídas, porque compensam outras faltas com a nicotina."O tratamento desses pacientes, chamados refratários, deve ter como objetivo inicial a eliminação das desordens emocionais. Na maioria de casos, é indicada uma terapia comportamental que enfoque praticamente as situações e emoções ligadas ao ato de fumar.Quem fuma mais de 20 cigarros por dia já apresenta dependência química. A interrupção do fumo e a falta da nicotina provoca a chamada síndrome da abstinência.O indivíduo fica irritado, perde a concentração, sente uma vontade incontrolável de fumar, tontura e fome exagerada. É justamente aí que ocorrem as recaídas.Segundo o psiquiatra Montesuma Pimenta Ferreira, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, "a maioria dos alcoólicos fuma". "As recaídas geralmente acontecem em estados afetivos negativos, como tristeza, solidão, tédio e medo, ou em festas em que a pessoa bebe, já que o álcool aumenta a vontade de fumar."Ferreira ainda relata casos de fumantes que têm bulimia (quando a pessoa vomita logo após ingerir alimento). Essas pessoas usam os efeitos da nicotina (que aumenta a sensação de saciedade) para comerem cada vez menos.
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